| Opinião: A segurança privada |
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| Quinta, 04 Março 2010 13:56 | |||
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 Durante todo o século XX a segurança foi assegurada por forças policiais, quase em regime de exclusividade, assumindo o papel de controlo e vigilância do espaço público e dos comportamentos no espaço público.
As
múltiplas
alterações que se foram produzindo na natureza do próprio Estado a
partir da
década de 60 levaram a que o cenário da segurança se fosse
metamorfoseando. O
advento da segurança privada é visto por alguns, optimistas, como
complementar
ao papel do Estado, enquanto outros vêem no crescimento acentuado desta
indústria uma alienação das funções do Estado e que mais cedo ou mais
tarde se
lhe sobreporá. O terceiro mundo assiste a alguns destes cenários.
O certo é que o número de membros da indústria de segurança privada tem vindo a aumentar desde a segunda guerra mundial, acompanhando a expansão económica mundial. Em muitos paÃses ocidentais a segurança privada triplica já o número de polÃcias públicos, e tendência parece ser a de aumento. Em Portugal o número equivale-se.  Há três grandes razões para a expansão da indústria da segurança: em primeiro lugar a tendência para as empresas se dedicarem apenas ao núcleo duro da sua actividade, subcontratando serviços acessórios, entre estes a segurança; em segundo lugar o alargamento das competências da segurança privada a áreas tradicionalmente atribuÃdas à polÃcia pública, atribuÃvel à s dificuldades orçamentais públicas; e em último lugar, a crescente necessidade de vigiar os novos espaços agrupadas em zonas residenciais, comerciais e de lazer de carácter “semi-públicos”, que em Portugal tem maior expressão em grandes centros comerciais.  Fundamentalmente todas elas entroncam numa lógica que a polÃcia pública não pode satisfazer: a segurança privada adequa-se a necessidades e sobretudo a padrões e interesses particulares. O cliente pagador define as regras em função das suas necessidades. A força pública tem um carácter universal, que em princÃpio deve ser imune à s necessidades individuais, mas que, sobretudo, deve obedecer a padrões de actuação acima dos caprichos privados.  Diversos grupos de pressão foram introduzindo meios de controlo sobre o enorme poder das forças de segurança públicas sobre a liberdade individual dos cidadãos. A profissão policial é de longe aquela que maiores meios de controlo tem. Justifica-se.  No entanto, hoje em dia, face à crescente importância das empresas de segurança privada, levanta-se a questão dos padrões de funcionamento, sobretudo quando se ensaiam em muitos paÃses europeus soluções de segurança privada em espaços públicos e se assiste ao aumento da sua intervenção nos sistemas de informação, desde a videovigilância em espaços públicos, “semi-públicos” intermédios tÃpicos dos grandes centros comerciais e espaços privados, até à “Corporate Intelligence” em segredos ligados à competitividade das empresas e do próprio paÃs.  O enquadramento legal destas empresas é omisso relativamente à s premissas de controlo nestas matérias. Sempre estranhei a polémica pública provinda de diversos sectores relativamente ao acesso das forças policiais a recursos como bases de dados ou de videovigilância. Razões históricas, ainda vivas em alguns sectores da sociedade portuguesa, ajudarão. Em muitos casos, desconfia-se da ética pública, sem que igual ónus seja suportado pela indústria privada.  Estes interesses não estão sujeitos à s regras de supervisão que pendem sobre os poderes públicos, antes estando dependentes dos circuitos de mercado e dos interesses de quem os requisita e de quem os paga. Mais do que uma questão legal, trata-se de uma questão ideológica, enraizada na forma como a liberalização do mercado se aplica de igual forma a todo o tipo de interesses nas democracias ocidentais.  Estranha-se que no debate público não se discutam as práticas socialmente toleradas e legislativamente assumidas em relação à indústria da segurança privada da mesma forma que o faz em relação aos poderes públicos, até porque o diálogo entre o sector público da segurança e o sector privado tem que ser feito em volta da complementaridade e não da competição.
in: Setubal na Rede / por José carlos Bastos Leitão (Comandante Distrital da PSP) Share
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