| Blackwater: Fábricas de guerra do futuro |
A Blackwater é talvez a mais conflituosa empresa de segurança privada dos Estados Unidos, a que mais escândalos tem originado, mas não é a única subcontratada pelo governo norte americano, que ganha cada vez mais prevelência nos teatros de guerra, fomentados pelos americanos..Nos anúncios publicitários, a Blackwater mostra primeiro um homem que dispara para alvos sucessivos, sugerindo uma autêntica máquina de guerra, que acerta em tudo e em todos a uma velocidade impressionante. Depois apresenta um grupo de 10 homens que atravessam pântanos, que se arrastam sob barreiras de arame farpado, que descem em slide de barrancos e helicópteros e sempre a disparar com diferentes armas, de diferentes potências e em todas as direcções. Os vídeos mostram um campo de treino da Blackwater, onde também se aprende en pistas especiais, a conduzir veículos de perseguição ou fuga, tanto em automóveis urbanos como "off road". Eles atiram à desabrida e atingem tudo, são os "super mens" que não perdem um dos milhentos alvos automáticos, que lhes surgem de surpresa e sobre os quais, os formandos são obrigado a acertar com eficácia, sob pena de obter uma pontuação muito baixa e isso se reflectir na nota final. A Blackwater tem pistas próprias de aterragem para treinos, com aviões de transporte, de guerra ou ligeiros, uma escola para treino de cães que detectam explosivos e até uma fábrica de veículos blindados, construidos para missões especiais ou específicas. Mas a publicidade desta empresa de segurança privada, não está dirigida aos clientes individuais da National Rifle Association, mas sim às agências do governo dos Estados Unidos, aquelas que são as suas principais clientes. Porque esta empresa não oferece um complexo campo de treino, mas sim, homens treinados e preparados para as mais perigosas missões. Diz o recente livro lançado sob o título "Blackwater" que esta empresa, detem o maior exercito privado, existente sobre a terra, o mais poderoso e eficaz em todo o mundo, garante Jeremy Scahill, jornalista e colunista do prestigiado jornal The Nation. (Cont.) Scahill escreveu, que durante a era de George Bush, 100 mil efectivos americanos posicionados no Iraque não eram membros do exército dos Estados Unidos, mas sim pessoal subcontratado a cerca de 600 empresas de segurança privada. Desses, muitas dezenas de milhares, fortemente armados, estavam e continuam envolvidos, directamente em acções de combate. Segundo o articulista, é difícil evitar a utilização do qualificativo "mercenários" para estes homens, que recebem em geral, um pagamento largamente superior ao dos próprios soldados do exército americano. No caso da Blackwater, essa empresa não foi contratada pelo Pentágono, mas diretamente pelo Departamento de Estado Americano, pelo governo. Esta situação colocava a empresa num limbo legal, que lhe permitia actuar sem ter de prestar contas a ninguém, pelo que fazia no desenvolvimento das suas acções de combate, ou controlo de áreas. O congressista americano Jan Schakowsky, calcula que 40 centavos de cada dólar gastos na guerra do Iraque, tem ido directamente para as empresas de segurança privada. Diz o congressista, que milhares desses homens, tem morrido em combate, desconhecendo-se o número real dos caídos, sob fogos opostos, mas parece que isso não preocupa ninguém. "Pensamos que entre 25 mil e 40 mil destes elementos estão neste momento em combate efectivo... mas não se tem a certeza. Nem sequer podemos investigar!", afirma o congressista Schakowsky. Um importante membro do Comitê de Inteligência do Congresso Americano, diz que não surpreende que o exercito dos Estados Unidos passe a privatizar as guerras, porque esse é o resultado das decisões neo-liberais para a politica externa, do governo americano. Percebe-se que existe unanimidade na preferência de que sejam outros, a derramar o seu próprio sangue, nas guerras inventadas pelos Estados Unidos. Porque ao subcontratar empresas privadas para tarefas relacionadas com a invasão e a guerra, é garantido que nada impedirá que essas empresas, contratem pessoas, nacionais de outros países. Para além da poupança de vidas nacionais, do aspecto economico e obviamente da eficiência desses grupos, há por todo o mundo, especialmente na américa latina, uma impressionante quantidade de mão-de-obra disponível e especializada, à espera de ser contratada. A oferta de candidatos em abundância e a baixa na cotação do dólar, faz também baixar o preço por unidade contratada, fazendo crescer os benefícios das empresas contratantes, cujas margens de lucro apesar de desconhecidas, devido à inexistência de um controlo sobre essas empresas, são estimadas em muitos milhões de dólares. Essa é a realidade que se verifica neste momento na América do Sul. As empresas de segurança privadas, subcontratadas pelo governo dos Estados Unidos, tem estado a recrutar através de agentes locais, no Chile, Peru, Honduras, El Salvador, etc. Calcula-se que sejam milhares, os chilenos, peruanos, hondurenhos e salvadorenhos, directamente envolvidos, no actual processo de estabilização do Iraque. E o pior, é que esta situação não é aleatória, porque estamos perante uma tendência que está dramaticamente em crescendo. Já se sabe que as ex-potências europeias se serviram dos colonizados para combater em suas guerras coloniais. Portugal, Espanha, França, Grã-Bretanha... toda a história colonial está marcada por esta prática. Já os Estados Unidos que combateram o colonialismo clássico, nunca tinha sido acusado de tal prática, à excepção de uma situação pontual, que diz respeito a ter enviado para a segunda guerra mundial e para o vietnam, uma percentagem excessiva de afro-americanos e porto-riquenhos, mas com a diferença que eram individuos de nacionalidade norte americana. Já na actualidade, com este novo negócio em que se transformou a guerra, quem vai à frente são latino-americanos subcontratados, pagos por uma empresa privada, que por sua vez tem um contrato com o governo que patrocina a guerra. No caso dos europeus era colonialismo, no do Vietnã discriminação, mas actualmente é o neoliberalismo que dita as regras. Cercada por escândalos, entre os quais os mais alardeados, foram o massacre da praça Nissor e a de Fallujah, onde o descontrolo com consequências gravíssimas, por parte dos seguranças ao serviço da Blackwater, levaram aos iraquianos a linchar quatro desses homens, a Blackwater teve que mudar de nome (agora é "Xe") e passar para um segundo plano. Mas muitos de seus efectivos passaram diretamente à empresa substituta, a Triple Canopy, outro gigante da segurança privada, que faz rigorosamente o mesmo que a sua antecessora, naquela zona do globo, ganhando diáriamente novos ódios por parte das populações locais. Na Internet podem ser vistos vídeos e fotos que os mercenários latino-americanos enviam para as famílias, expondo com orgulho, armas sofisticadas, ou mostrando bandejas na generosa cantina ou área social da empresa empregadora, com esse uniforme, cuja única diferencia do das tropas do exército americano, está no gorro, que é o da empresa de segurança, com o correspondente logo ao alto. (Ver no Youtube: "chilenos no Iraque", "peruanos no Iraque", etc.). No entanto, nem todos esses homens se mostram completamente felizes. As empresas de segurança estão a ser objecto de denúncias, por prometerem salários na ordem dos três mil dólares mensais, e obrigarem os novos recrutados, quando já a bordo dos aviões, a assinarem contratos de apenas mil dólares mensais. De qualquer forma, a miséria que grassa na América Latina, produz uma inusitada super abundância de jovens musculosos e hábeis, de origens muito pobres e desempregados, dispostos a tudo para ajudarem as famílias, o que faz florescer o negócios das empresas contratantes. Em El Salvador, Julio Nayo, agente local das empresas de segurança subcontratadas pelo governo americano, colocou recentemente um anúncio nos jornais e o resultado foi simplesmente avassalador. Apresentaram-se milhares de candidatos durante semanas, alguns deles dispostos a embarcar por apenas 700 dólares mensais. No Chile, o representante é José Miguel Pizarro, que já enviou um número indiscriminado de chilenos para o Iraque e que se gaba de estar preparado para enviar a qualquer momento, 1.200 comandos chilenos altamente treinados, para qualquer lugar do mundo. Para poder eludir a legislação desses países, contra atividades paramilitares, os chilenos são contratados no Uruguai e os colombianos no Panamá. Pizarro é sem dúvida um "visionário" quando afirma à revista Mother Jones, da costa oeste dos Estados Unidos, que a privatização dos serviços de guerra "é uma tendência de longo prazo que terá conseqüências históricas.""Todo o futuro das empresas militares privadas, está a ser redesenhado enquanto falamos", acrescenta. Os especialistas americanos, asseguram que apesar de ainda que hoje, existam nos terrenos de guerra, mercenários de muitos outros países contratados por estas companhias, cada vez mais, a tendência "natural" em crescente será o recrutamento nos países da América Latina. Assinalam esses especialistas, que para os instrutores de treino de guerra, a afinidade cultural com os latino-americanos é muito maior do que com os asiáticos, por exemplo e que os preços cobrados por um romeno são quatro vezes superiores aos de um chileno, mas é sobretudo no terreno da geopolítica que a América Latina ganha vantagem, com um número cada vez maior de mancebos a combater nas próximas guerras, sob as cores da bandeira dos Estados Unidos. Enquanto a situação social e econômica no continente sul americano, continuar a gerar "soldados de fortuna", em quantidade e qualidade, dispostos a obter qualquer trabalho num qualquer lugar, o governo norte-americano não terá falta de novos recrutas. No ponto de vista dos especialistas em economia, não há nada há de condenável nestas atividades e tendências de longo prazo, pois segundo os mesmos, trata-se de um emprego como qualquer outro, mas como não se tomem medidas e se adopte outro ponto de vista em relação ao tema, o chamado mercado livre, principal responsável pelas situaçãos sociais extremas que se verificam nesses países, no futuro, seremos confrontados com elevadíssimos níveis de recrutamento, que serão causadores de danos irreparáveis. Só com uma séria e responsável intervenção dos governos latino-americanos, se pode travar a tendência que leva cada vez mais jovens, para fora das suas fronteiras, com destino a cenários de guerra, onde irão combater de armas na mão, defendendo interesses, que nada tem a ver com os seus países de origem. Soldados de poucas luzes, outros novos, mas que são os mesmos, sobre os quais já o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) escrevia: "Saberás algum dia porque é que o teu pai sofre, "E como o mesmo braço que ontem o fez mendigo, "Hoje engorda com o sangue que tu derramas." (*) O autor é investigador, jornalista e ensaísta argentino, radicado em Mendoza, freqüenta Equador, Bolívia e Peru e colabora com a agência Prensa Latina. Share
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